#CRÔNICA "Bragança e a poção do aprisionamento" (Girotto Brito)

Praia de Ajuruteua, Bragança, Pará.

O bragantino tem o nítido costume de falar aos que vêm de fora que Bragança é uma cidade enfeitiçada, que quem aporta nessas terras não se vai jamais. Ouvi isso diversas vezes, de pessoas diferentes, principalmente no primeiro ano de minha chegada. Um exagero? Talvez, quem sabe... mas certamente não uma mentira. 

À primeira vista, Bragança não é uma cidade bonita. Definitivamente não é. As ruas são mal asfaltadas e com pouca sinalização, as calçadas são sujas, as valas abertas se mostram por todos os bairros, os urubus se revezam com os vira-latas rasgando sacos de lixo nas esquinas, o comércio centralizado parece uma capital indiana durante o dia — certa vez pensei ter visto um elefante — e nas madrugadas travestis disputam clientes anônimos; o rio de água barrenta mostra o lixo depositado no leito em toda baixa de maré e a culinária exótica deixa o visitante de estômago embrulhado — maniçoba e turu não são bons pratos para se recepcionar turistas, informo. Todavia, o feitiço bragantino não mora nesses aspectos do primeiro olhar, mas no olhar de quem consegue ver os séculos. A beleza está na simplicidade das ruas, das pessoas, da culinária, da cultura, da música e da arquitetura. Casarões antigos, coretos, uma igreja bicentenária, um rio que corre para os dois lados, um santo preto, chapéus com penas de pato, danças ao som de rabeca e pandeiro, igarapés, a paradisíaca praia de Ajuruteua, peixe assado na brasa, boa farinha, caranguejo, brisa litorânea, tranquilidade e mulheres bonitas — eis os ingredientes da poção do aprisionamento. 

A cidade parece possuir um ritmo próprio. O cotidiano é lento, vagaroso, e, para a nossa surpresa, extremamente veloz. Quem mora aqui não sente aquele ritmo frenético das grandes cidades, não tem que acordar às quatro para tomar um ônibus que leva duas horas para chegar ao trabalho, não se sente constantemente inseguro e vigiado, e vê o dia tardar a findar. Quando se dá conta, no entanto, passaram-se anos. Isso mesmo, os dias são lentos e os anos são velozes. Um ritmo próprio. Feitiço, dizem os antigos. 

Sou cético demais para acreditar em feitiçaria, mas, ironicamente, cá estou: fisgado nesse anzol de calmaria e simples prazeres, como um navegante à deriva que se conforma em morrer contemplando a inércia das estrelas. 


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