“O último voo do flamingo": Mia Couto, por Lucas Stefano



Numa interiorana vila de Moçambique denominada de Tizangara, estranhos eventos passam a ocorrer. Vários soldados das forças de paz da ONU (os “capacetes azuis") começam a explodir misteriosamente. O único resto mortal de cada um desses indivíduos vem a ser o pênis. Sim, caro amigo leitor. Nem sangue, nem tripas nem ossos, só o pênis e os testículos. O por que, ninguém sabe. Após o sucessivo aumento no número de explosões de soldados, o suficiente para que fosse chamada atenção internacional para a modesta vila, uma investigação chefiada pelo italiano Massimo Risi tem início.
Mas, ao contrário do que a razão cartesiana deste íntegro investigador estrangeiro tenta provar, afinal estamos falando de uma obra de Mia Couto, os caminhos para a solução de tal mistério se mostram demasiadamente tortuosos, levando o italiano às raias da loucura. Entremeado pelo constante conflito entre razão e tradição aliado ao enredo, o autor tece uma ácida crítica contra a corrupção dos chefes do poder político do país no pós Guerra Civil.
Antônio Emílio Leite Couto, mais conhecido como Mia Couto por conta de sua paixão por gatos, é um escritor moçambicano nascido na cidade de Beira no ano de 1955. Ainda adolescente, aos 14 anos, publicou uma poesia em um jornal local e daí não parou mais. Já adulto, entrou no curso de Medicina, tendo mais tarde enveredado no Jornalismo, atuando como militante da FRELIMO enquanto correspondente na Guerra Civil Moçambicana (1976-1992).
Concluiu seus estudos enquanto biólogo, integrando atualmente diversos grupos em defesa do meio-ambiente. Aclamado escritor de nosso tempo, já se aventurou (com êxito) por diversos gêneros literários, começando pela poesia e passando pelo conto, novela e não-ficção. Mas foi com o seu romance de estreia, "Terra Sonâmbula", publicado em 1992, que as atenções do mundo se voltaram para ele. Mia  Couto já recebeu, e ainda recebe, inúmeros prêmios literários internacionais, sendo o mais prestigiado deles até o momento o Prêmio Camões, maior honraria literária em Língua Portuguesa, com o qual foi galardoado em 2013 pelo conjunto da obra.
“O último voo do flamingo” teve a sua primeira edição lançada em Portugal pela editora Caminho no ano 2000, tendo chegado ao Brasil em 2005 pela Companhia das Letras. Pertencente à novíssima geração de escritores africanos dos países falantes de Língua Portuguesa, esta obra de Mia Couto de pouco mais de 200 páginas nos mostra o que de melhor há em termos do estilo do autor: o onírico, o realismo mágico, a narrativa não-linear, o diálogo entre oralidade e escrita, a crítica social e a monumental força poética de sua prosa.
Vários personagens dos mais interessantes pontuam o livro “O último voo do flamingo, sendo os principais: o tradutor oficial de Tizangara, e narrador em primeira pessoa do romance; Chupanga, adjunto do administrador de Tizangara e protótipo do subalterno soberbo; Estêvão Jonas, o corrupto administrador de Tizangara; Ermelinda, esposa de Estêvão Jonas e dotada de um ego prodigiosamente inflado; Massimo Risi, o racional investigador das Nações Unidas; Ana Deusqueira, a prostituta da vila que conhece como ninguém os homens locais; Suplício, pescador de profissão e pai do tradutor de Tizangara, e Temporina, uma jovem de corpo formoso porém de feições de mulher idosa.
O tradutor oficial de Tizangara desempenha um papel fundamental em nosso adentrar na narrativa do livro. É através dele que somos conduzidos aos diversos meandros da mesma e de todos os eventos que ocorreram naquele tempo, os quais agora só existem na memória. Sim, se trata de uma narrativa contada na perspectiva do presente, tal qual um testemunho, com os fatos narrados já tendo ocorrido. Além disso, pelo fato de o livro ser narrado em primeira pessoa, a não explicação de uma série de eventos e o clima de mistério e onírico criado dão ao livro um tempero dos mais interessantes.
Ambientando seu romance no  pós Guerra Civil (1976-1992), Mia Couto não poupa caneta para criticar os poderosos: A modesta vila de Tizangara, situada nos confins do até um outrora recente Moçambique em pleno conflito bélico, acaba se tornando um espetacular microcosmo do desvirtuamento político pelo qual os chefes do poder da nação passaram e ainda passam. Os ar condicionados desviados dos hospitais públicos para a casa do administrador, o racismo, a corrupção em diversos níveis e a opressão contra os camponeses são apenas alguns dos exemplos que através da voz do narrador vamos tomando conhecimento.
O tempo psicológico aqui se faz valer na plenitude de sua força. Tal qualidade proporciona ao leitor, sobretudo, a percepção de profundidade dos personagens e do enredo tratado: as explosões  e o clima de mistério, a convocação do tradutor oficial e a chegada da investigação internacional, o regresso aos tempos de infância do narrador, os diversos depoimentos que dão uma explicação fantástica para cada um dos eventos e o passado de Mássimo Risi amarram a trama de maneira singular. A força de tal enredo e do uso do tempo psicológico é tamanha, que dilui quase que por completo o tempo cronológico da trama, que se passa ao longo de algumas semanas da investigação.
O que dizer ainda acerca desta leitura? Mia Couto prontamente se tornou um dos poucos autores em que ao final de um livro seu eu fico com a mais completa cara de paisagem. Quando eu jurava que tinha tomado um baque suficiente com “Terra Sonâmbula’, eis que vem “O último voo do flamingo”. É necessário, sobretudo, ter pique e gosto para engatar na leitura do livro. Não é uma obra que eu recomendaria a você ler a toque de caixa. Procure um lugar calmo e silencioso para apreciá-la. Ela merece tal atitude, sem sombra alguma de dúvidas. Com a presença do fantástico, tema constante em suas obras, Mia Couto engendra uma afiada análise política ao seu tempo, em que utiliza o surreal como refúgio da dura realidade que assola seu país, bem como trampolim para a perspectiva de um futuro melhor. Quando você, caro amigo leitor, chega na cena em que é explicado o significado da expressão “o último voo do flamingo”, me chame para ajudar a procurar o vosso queixo, pois ele certamente cairá.


COUTO, Mia.  O último voo do flamingo.  São Paulo: Companhia das Letras. 2005. 225 pp.
Lido entre os dias 02 e 03 de Junho.

O CRÍTICO - Lucas Stefano, 21 anos, é oriundo da cidade de Bragança, Pará, nascido em 18 de setembro de 1995. Desde a infância tem manifestado interesse pela literatura. “O mágico de Oz” foi o seu primeiro livro lido até o fim, aos 8 anos de idade. E daí não parou mais. Concluinte do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade Federal do Pará- Campus Bragança, Lucas Stefano também escreve pequenas narrativas de ficção e não ficção (contos e crônicas respectivamente), estas ainda não publicadas. Além disso, mantém um blog de resenhas literárias intitulado “Ler, Resenhar e Aprender”, onde duas vezes por semana, sempre ás segundas e sextas, fala acerca das suas leituras mais recentes. Atualmente encabeça dois projetos de leitura: “Top 10 melhores livros do Stephen King”, em comemoração ao aniversário de 70 anos do autor, e o “Literatura Africana em Língua Portuguesa”, ao qual a resenha do livro “O último voo do flamingo” faz parte. Este último tem o intuito de divulgar autores africanos do PALOP (Países  africanos de língua oficial portuguesa) para o máximo de pessoas possível.


“A putice é eterna”- Ana Deusqueira

“As ruínas de uma nação começam no lar do pequeno cidadão”- Provérbio africano.

“Eu queria saber se tinha terminado sua tarefa de morrer. Ela explicou-se lenta e longa. Andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas. Não responda com esse sorriso, você não sabe o serviço do choro. O que faz a lágrima ? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro inicio. Cada gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano. Pensava ela por outras, quase nenhumas, palavras. E suspirou- Haja Deus !”-(p. 112)


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